Uma das formas musicais polas que tenho uma especial predileção é o madrigal. Seguramente isto se deva a que representa o primeiro intento de encontrar uma íntima conexão entre a música e a poesia, rompendo com o modelo estrófico dominante até esse momento.
Jakob Arcadelt era um desses compositores franco-flamengos aos que lhes devemos o desenvolvimento da polifonia, e é o autor deste “Il bianco e dolce cigno” [O branco e doce cisne]. Lamentavelmente desconhecemos quem escreveu a poesia, especulam-se nomes como Giovanni Guidiccioni ou Alfonso d’Avalos mas nada sabemos con certeza.
O texto fala-nos dum homem que se encontra no final da sua vida e que o afronta primeiro chorando, mas finalmente con serenidade e mesmo alegria. O Arcadelt joga maravillosamente com as tensões entre uma textura homofónica, igualmente moribunda, que lhe estava a ceder o seu domínio à polifonía. De seguro que o compositor não matinava neste paralelismo, mas o certo é que a substituição duma textura pola outra deu-nos uma das etapas mais brilhantes da história da música puramente vocal.
Com este mesmo texto fez também um espléndido madrigal Orazio Vecchi, acho que com óbvias reminiscências do anterior, mas o do amigo Arcadelt chegou antes a mim e com ele fico.

  Xan 06, 2014